Uma Mulher no Cartaz Não É Curadoria, é Cota de Imagem
Todo início de temporada de festivais, a mesma cena se repete: o line-up é anunciado, os fãs comemoram, e lá está de novo — entre vinte, trinta, quarenta nomes — uma, duas, no máximo três artistas mulheres. E quando alguém questiona, vem a resposta pronta: 'a gente contrata quem vende'.
Só que essa resposta não se sustenta mais. E é hora de parar de fingir que sustenta.
Os números que ninguém consegue esconder
Qualquer pessoa com paciência para contar nomes em cartazes recentes — e várias iniciativas e coletivos contam, temporada após temporada — chega à mesma conclusão: a participação de artistas mulheres em line-ups de grandes festivais brasileiros raramente passa da casa dos 20%, e em muitos casos fica bem abaixo disso. Em palcos principais, então, o número despenca para algo próximo de zero.
Não é falta de oferta. O Brasil está vivendo um dos momentos mais férteis da história da música brasileira feita por mulheres — do pop ao forró, do rap à MPB, do funk ao regional. Artistas esgotando casas de show, dominando streaming, lotando arenas. O problema não é quem está disponível. É quem está sendo convidado.
'Quem vende' — segundo quem?
Aí mora a nuance que os bookers preferem não examinar. A lógica do 'contrata quem vende' é circular: quem já é grande recebe os palcos grandes, e quem recebe os palcos grandes fica grande. Quando os critérios de curadoria olham apenas para números consolidados, eles eternizam o desequilíbrio histórico em vez de refletir o momento real da música.
Conversas com produtoras e agentes do ramo revelam o que já suspeitávamos: artistas mulheres recebem propostas de valores menores pelos mesmos slots, são escaladas para horários menos nobres e precisam provar o dobro para receber a mesma confiança. A 'falta de headliners femininas' é, em boa medida, um problema que a própria indústria fabricou.
Outra curadoria é possível — e já existe
A parte boa da história é que o contraexemplo não é teórico. Festivais no Brasil e pela América Latina vêm provando que line-ups equilibrados não só funcionam como vendem: público responde, imprensa cobre, marcas querem associar. Curadorias que partem de recortes autênticos — valorizando cenas locais, artistas do Norte e Nordeste, projetos liderados por mulheres — têm construído identidades fortes justamente por não copiarem o cartaz padrão.
O que esses festivais entendem é simples: diversidade no line-up não é favor a ninguém. É curadoria melhor. É programar um festival que pareça com o público que o frequenta.
O que cobrar, na prática
Se você produz, contrata, patrocina ou simplesmente compra ingresso, há cobranças concretas a fazer:
Transparência nos números. Festivais deveriam publicar a composição de gênero dos próprios line-ups — quem assume o número, trabalha para mudá-lo.
Paridade em todos os níveis. Não só nos palcos secundários: headliner feminina, produção executiva feminina, técnica de som e iluminação mulheres. O palco reflete o backstage.
Pagamento igual por slot igual. Mesmo horário, mesmo palco, mesmo cachê. Sem exceção.
Público que cobra. Comentar, questionar, escolher. Todo ano que passa sem reação é mais um cartaz igual ao anterior.
O cartaz que a gente merece
Ninguém está pedindo que festivais deixem de contratar quem já é estrela. Estamos pedindo que olhem para o presente da música brasileira e latina com os dois olhos abertos — porque nele, mulheres estão entre os maiores nomes de todos os gêneros.
Um cartaz com uma única mulher não é tradição nem realidade de mercado. É escolha. E escolhas, felizmente, podem ser revistas. A próxima temporada de festivais está aí: que os cartazes finalmente pareçam com a música que o país realmente faz.